Consultado pelo PCB sobre o significado da recente vitória eleitoral das esquerdas na recente eleição geral ocorrida na Grécia, o Partido Comunista da Grécia (KKE) enviou-nos a seguinte análise:
1. As perdas sofridas pela Nova Democracia (ND) - partido do governo -, e pelo PASOK - oposição oficial -, refletem, de certa forma, os objetivo políticos dos comunistas gregos: enfraquecer estes dois partidos representantes do grande capital e fortalecer o KKE.
A ND e o PASOK não são partidos novos na sociedade grega Ambos vêm alternando-se no poder há mais de 30 anos, desde a queda da ditadura fascista na Grécia, em 1974: de 1974 a 1981 era a ND; de 1981 a 1989, o PASOK. De 1990 a 1993 de novo a ND; de 1993 a 2004 o PASOK e, de 2004 ao presente, a ND. Ou seja, no total o PASOK esteve no poder por 18 anos e a ND por 15. Os dois partidos implementaram, basicamente, as mesma políticas conservadoras, principalmente a partir de 1990, quando tinham a mesma orientação geral para a economia, nas políticas sociais no que se refere à democracia e na política externa, na qual defendem o alinhamento da Grécia com as forças imperialistas da UE, da OTAN e dos EUA.
A política antipopular implementada por estes dois partidos vem enfrentando resistência, revolta e protestos crescentes entre os extratos populares da classe trabalhadora. Ao longo destes anos, o KKE tem chamado a atenção para o fato de que os problemas diários da população derivam da estratégia destes partidos governantes, ND e PASOK, e não são determinados pela "forma de governar" ou pelo "estilo de administração" que apresentam. Nós alertamos o povo que a linha geral devia ser condenada, e que, a menos que a alternância entre os dois partidos fosse interrompida, muito esforço e tempo seria perdida pelo movimento popular para tentar barrar as medidas antipopulares do governo que estão sendo planejadas ou para obter ganhos reais permanentes ou mesmo temporários.
O resultado desta ação do KKE foi a redução da votação destes dois partidos nas eleições, o que não implica que o movimento popular tenha eliminado, de vez, o sistema bipartidário: a ND e o PASOK, apesar das perdas, mantiveram elevados percentuais de voto mesmo entre os trabalhadores assalariados, os trabalhadores autônomos, os fazendeiros pobres e jovens e mulheres.
Estamos cientes, é claro, de que uma campanha eleitoral em geral não pode resolver todos os problemas. Mas, por meio de uma campanha eleitoral, uma passo à frente pode ser dado através da luta sóciopolítica para pôr em movimento desenvolvimentos positivos que farão avançar a perspectiva de poder para o povo. .
2. O KKE teve resultados muito bons: 8.2% dos votos e 22 deputados federais (comparados a 5,9% e 12 deputados federais, da última vez), o que se constitui numa contribuição efetiva para a grande causa da ascensão do movimento popular e dos trabalhadores na Grécia e na Europa, de forma mais geral, e para combater as soluções de centrodireita e de centroesquerda que foram tentadas na Europa no período recente. As características particulares que definem a ascensão do KKE não podem ser comparadas com outras formas de oposição ao PASOK ou à ND, ou mesmo computadas em conjunto, como expressam, em uma escala menor, pelos votos dados aos partidos oportunistas e aos partidos reformistas (com 5% dos votos e 14 deputados, no total), ou aos partidos nacionalistas, racistas e de ultradireita (com 3,7% e 10 cadeiras no Parlamento). Estas forças flertarão com os cenários de centrodireita e de centroesquerda.
O KKE ganhou votos com pela estabilidade de sua política, pela sua forma de fazer uma oposição responsável e por sua ação em meio ao povo e ao movimento dos trabalhadores, devido aos seus laços com a classe trabalhadora grega, com os donos de pequenas e médias empresas e comerciantes nos centros urbanos e com os fazendeiros pobres nas áreas rurais. Mais ainda, como mostrado pelos resultados eleitorais e pelos dados qualitativos das pesquisas, o maior aumento dos votos do KKE se deu nas áreas mais pobres, nos bairros de trabalhadores e nas comunidades nos grandes centros urbanos, onde o proletariado, os extratos populares os estratos populares e os jovens estão concentrados. E,m Athenas, Piraeus, Thessaloniki e muitas capitais regionais, o KKE recebeu mais de 10% dos votos. Recebeu, também, mais de 10% entre os jovens de 18 a 35 anos, entre os trabalhadores do setor privado, os desempregados e os estudantes
O KKE não cedeu às pressões ou aos dilemas colocados pelos partidos governantes. Antes das eleições, afirmamos com clareza que não iríamos colaborar com nenhum dos dois partidos burgueses governantes. O aumento dos votos no KKE deveu-se, em muito, à sua significativa intervenção ideológica e política e à sua ação nos movimentos populares, de juventude e de trabalhadores durante os anos que antecederam a eleição, principalmente a partir de 1991.
Acreditamos que os votos recebidos pelo KKE não foram o resultado de impressões produzidas no último momento, durante a campanha eleitoral. Confirmou-se que o pré-requisito para o fortalecimento do Partido Comunista foi a orientação estável de sua ação nas frentes básicas de luta junto à classe trabalhadora e aos jovens.
3. A ND saiu das eleições enfraquecida, mesmo tendo eleito 152 deputados, o que é mais da metade do Parlamento, e já tendo formado a um governo de maioria. Mas é bom lembrar que esta pequena maioria, associada ao fato de que esta bancada representa a minoria dos votos (41,7%), vai enfrentar problemas, objetivamente, se o movimento avançar nas lutas para impedir que o governo aprove medidas reacionárias e "reformas" capitalistas no Parlamento (como já anunciou o nono governo), ou impedir sua implementação, caso aprovadas.
Por outro lado, o PASOK, o partido da oposição oficial, que recebeu 38% do voto popular e elegeu 102 deputados, só poderá opor-se ao governo, no essencial, fazendo demagogia. O PASOK tem a mesma linha estratégica, com diferenças parciais; o PASOK também quer aprovar as mesmas reformas reacionárias. Além disso, durante o último verão, antes das eleições, a ND e o PASOK, juntos, aprovaram 11 das 13 leis antipopulares que o governo havia encaminhado ao Parlamento. A ausência de uma oposição real foi intensificada pela crise interna que se abateu sobre o PASOK após os resultados adversos nas eleições e pela questão da pressão pelo afastamento do líder Papandreou e sua substituição na liderança do PASOK. É claro que a disputa é pelo posto de presidente, uma vez que não há diferenças significativas entre as várias facções que estão representadas pela liderança do partido. A questão está evoluindo e estamos acompanhando-a. As pessoas que votaram no PASOK não devem esperar nada de positivo de seu desenvolvimento, e por isso as conclamamos a deixar este terreno e somar forças com o KKE.
Entre os planos de longo prazo da classe dominante está o de promover um consenso entre os partidos "liberais clássicos" e os partidos "socialdemocratas liberais" na Europa e na Grécia. Quando estes planos falham, emergem vários cenários de centroesquerda, cujo objetivo é colocar nas mãos da socialdemocracia as forças oportunistas e reformistas que ainda são seguidas por algumas pessoas da Esquerda que caem em armadilhas como a ilusão de que "o capitalismo pode se tornar mais humano". Estas ilusões, em nossa opinião, são perigosas para o presente e o futuro do movimento popular e do movimento comunista, cujo objetivo é a perspectiva de poder para o povo e o socialismo. Tais planos também existem, indubitavelmente, para a Grécia. O contraponto a eles, acreditamos, é a linha consistente do KKE para uma aliança popular e para a criação de uma Frente de Luta Antiimperialista e Antimonopolista.
4. Ao longo da campanha eleitoral, o KKE mostrou com clareza a sua proposta de formar uma aliança com as forças políticas que concordam em lutar contra as escolhas imperialistas e os monopólios, com uma perspectiva de construir uma economia e um poder do povo.
Os resultados e, em especial, o elevado percentual de votos recebidos por nosso partido, como dito anteriormente, confirmam a ação do Partido orientada pelos objetivos determinada por sua natureza e pelas forças sociais cujos interesses estão na base da Frente Antimonopolista e Antiimperialista que será formada.
Nossa política de alianças contribui para desengajar algumas forces que seguem sob os dilemas coercitivos da ND e do PASOK. É sobre esta base que nos confrontamos com as ilusões oportunistas que inibem a radicalização e aprisionam as massas; é sobre esta mesma base que podemos nos confrontar com com as várias facções nacionalistas e com os pontos de vista que são hostis aos imigrantes que vivem na Grécia.
O Comitê Central do KKE avaliou como positive a cooperação que ocorreu na nossa campanha com a Intervenção dos Cidadãos de Esquerda e outros colaboradores e personalidades. Insistimos em afirmar que não vamos colaborar com nenhum partido burguês ou com as forces do oportunismo que aparecem na Grécia. O KKE considera uma aliança como uma construção muito séria, que deve basear-se em princípios, na autosuficiência de cada uma das forças mas também em torno de um programa abrangente com objetivos de luta definidos na clara perspectiva de construção de uma proposta alternativa de poder que levará à derrubada do capitalismo e à abertura do caminho para o socialismo Uma aliança não pode ser formada por forças que estão aqui hoje mas que não estarão amanhã. As palavras devem corresponder aos feitos. Uma aliança não é uma aventura para conseguir alguns votos a mais que serão varridos amanhã pelo primeiro vento que soprar. Em nossa opinião, os resultados também explicam o firme curso ascendente do KKE nos últimos 20 anos, mesmo sob condições bastante difíceis, dado o balanço adverso do poder global, em contraste com outras forces na Grécia que se autoproclamam de Esquerda e que vêm recebendo votações de 5%, 3%, 5% e 2.9% nas últimas eleições.
5. Logo após as eleições, o governo começou a falar sobre mudanças no sistema de seguridade social que podem ser traduzidas como um esforço para elevar a idadae de aposentadoria para 67 anos, para eliminar ganhos tais como aqueles ligados ao pagamentos adicionais por trabalho pesado e insalubre, à redução das pensões etc. O governo tentará atrair os sindicatos para um diálogo social espúrio, cultivando ilusões e expectativas. As forças de classe do KKE e do PAME estão prontas para a luta de resistência com greves e mobilizações.
Constam também da agenda tópicos nas areas de Educação, referentes a ações de privatização de Universidades e unidades de ensino pré-escolar, fundamental e médio, pelas quais a classe trabalhadora pagará caro. Estão sendo planejadas também privatizações nas áreas bem-estar social visando à eliminação do setor público, como vem ocorrendo na saúde. Constam também da lista de novas privatizações empresas públicas dos setores de transportes aéreos, telecomunicações e energia, entre outros.
A atenção do Partido e do movimento está focada nos problemas mais importantes que resultaram dos recentes incêndios de largas proporções, tais como o reflorestamento das áreas atingidas, a proteção da economia agrária, a assistência aos donos de propriedades pequenas e médias destruídas, para programas de apoio aos desabrigados nestas regiões etc. Ao mesmo tempo, trabalhos para a prevenção de possíveis inundações fazem-se necessárias, uma vez que inundações serão mais destruidoras se ocorrerem nas áreas devastadas pelos incêndios.
Em resumo, os problemas diários de nosso povo são o centro de nosso interesse. Ao mesmo tempo, estamos acompanhando com atenção os acontecimentos na região. No Oriente Médio e nos Bálcans a situação está explosiva. A "independência" de Kosovo que está sendo planejada será uma caixa de Pandora liberando muitos demônios para os países na região, incluindo a Grécia. No centro do conflito interimperialista USA - Rússia estão as rotas pelas quais passarão os oleodutos e gasodutos, e nosso país, que assinou um acordo com a Rússia, está novamente envolvido nisso, assim como países vizinhos como Turquia e Bulgária. A situação quanto ao problema de Chipre é igualmente aguda.
A expansão da OTAN para o Leste, para os Bálcans e a Rússia vem transformando mais e mais a região num barril de pólvora Por esta razão, o Partido e as forças pacifistas da Grécia estão em estado de alerta.
Temos clareza de que os resultados obtidos por nosso Partido significarão uma escalada nas ações contra nós pelos vários centros que dão suporte ao sistema político, que não querem que a alternativa que propomos esteja visível no horizonte. Nossa decisão é que o dia seguinte à eleição vai encontrar-nos envolvidos de forma mais profunda e próxima com os problemas da classe trabalhadora, contribuindo para cultivar uma atmosfera de esperança, organização e iniciativa em meio ao povo, de forma que o próprio povo entenda que tem mais poderes do que até então acreditara, e que deve usar este poder uma vez que é desta forma que o adversário vai compreender que não é tão forte quanto pensa que é.
O KKE já avançou nas lutas com energia renovada, na perspectiva de que teremos grandes saltos à frente.
Dimitris Koutsoumpas
Member of the PB of the CC of KKE
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