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RECUPERAR A INICIATIVA
*Marcos Domich




As cartas estão dadas. Em 10 de agosto, se define uma das batalhas - ainda que não seja a última nem a mais importante - do processo político boliviano. Os prazos fatais não funcionam na Bolívia. Tudo levava a crer, graças à agitação dos meios de comunicação, que em 4 de maio se definiria o futuro da Bolívia. Na verdade, o referendo, mal definido como autonômico, não passou de uma pesquisa caríssima. O que se apresentou como um grande triunfo dos supostos autonomistas foi, sem atenuantes, uma vitória midiática. A direita sabe fazer boas contas em seus negócios, porém seus cálculos eleitorais mostram que não conhecem nem a mais elementar aritmética política. Uma abstenção de mais de 40% é um dado muito sério para a Bolívia e, ainda mais, somando-se os votos pelo NÃO. Porém, finalmente, com a promulgação da lei do referendo revogatório, ainda que se realizem os referendos pendentes, o assunto passou ao plano da total inaplicabilidade.

Isto produziu grandes transtornos no campo da direita e desarticulou os planos conspiratórios, o que não significa que não vão voltar a eles em pouco tempo. Porém o que ocorreu é que se espalhou confusão na direita, provocando o desânimo. O suspiro reacionário parece dizer "Como iam bem nossos planos!" "Vêm uns desorientados e põem tudo a perder". Aumentam as recriminações, os pedidos de contas; com maior freqüência soa entre a direita a palavra traição!

Nesse panorama, porém, para a esquerda, seria perigosa a inércia, a excessiva confiança no êxito. O governo, as forças e os movimentos populares, o MAS e a esquerda conseqüente devem empenhar-se em medidas urgentes com três objetivos:

a) agrupar as forças patrióticas, populares e revolucionárias num único bloco;

b) elaborar um programa de consenso, que expresse os interesses nacionais e populares da esmagadora maioria dos bolivianos;

c) organizar a condução do processo, excluindo os oportunistas, os vacilantes, os infiltrados e os corruptos.

Os objetivos "a" e "c" não requerem maiores explicações. O eixo está no programa mínimo e na decisão de levá-lo adiante. A nosso juízo, são umas cinco medidas:

a - completar o processo de recuperação do patrimônio nacional alienado pelo neoliberalismo;

b - liquidar o latifúndio e as relações de produção pré-capitalistas;

c - desenvolver, reconstruir e fortalecer o aparato produtivo;

d - elaborar um plano de compensações que, de maneira sustentada, aliviem a pobreza;

e – implementar uma reforma do Estado que garanta a unidade nacional, a soberania e a inclusão dos, até agora, marginalizados e oprimidos. Existem outras medidas mais; é questão de analisá-las.

Porém, devem-se registrar alguns pressupostos indispensáveis: Recuperar o espaço perdido nas camadas médias; incorporar, a nível protagônico, a classe operária e os trabalhadores organizados em sindicatos, os camponeses e originários, os povos vizinhos, as mulheres e a juventude. Aplicar esforços numa intensa campanha de esclarecimento político e ideológico que supere simultaneamente a incerteza, a apatia, o conformismo, o economicismo, o reivindicacionismo inoportuno e a atuação anárquica.

(*) dirigente do Partido Comunista Boliviano - PCB (maio 2008)

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