EUA reconhecem documento que cita possibilidade de operações na América do Sul
O Departamento de Estado dos EUA confirmou ontem ser verdadeiro o
documento da Força Aérea americana apresentado na quarta-feira, em
Brasília, pelo deputado federal José Genoino (PT-SP), que cita a base
militar colombiana de Palanquero, a ser usada por Washington, como
"uma oportunidade para a realização de operações no âmbito total da
América do Sul". Baseado no documento, Genoino acredita que o polêmico
acordo militar que garante o acesso dos EUA a sete bases no território
colombiano poderia abrir caminho para as forças armadas
norte-americanas atuarem em outros países, além da Colômbia. Opinião
semelhante tem o diretor do Programa de Segurança para a América
Latina do Center for International Policy, em Washington, Adam
Isacson, que analisou não só o documento da Força Aérea, mas também o
texto final do acordo, que veio a público em 5 de novembro no site do
Ministério das Relações Exteriores da Colômbia, ao qual o JB teve
acesso.
"Eu não gosto do texto do acordo. Ele não fala explicitamente que
operações do Exército americano fora das fronteiras colombianas estão
proibidas. Ou seja, não proíbe explicitamente as operações
extraterritoriais. Só estabelece que o acordo obedecerá aos
"princípios de não-intervenção em assuntos internos de outros
Estados", diz Isacson. Na prática, isso significa que, se os EUA
alegarem o direito de auto-defesa, por exemplo, poderão operar em
outras regiões da América Latina, a partir das bases colombianas.
O acordo, entende Isacson, deveria detalhar melhor as restrições a
serem impostas à atuação das forças americanas nas bases colombianas.
Mas o ponto que trata da ingerência de forças estrangeiras no
continente sul-americano, tema considerado crucial por líderes do
Mercosul, inclusive pelo presidente brasileiro, Luiz Inácio da Silva,
tem apenas duas linhas - no Artigo Terceiro, parte 4 - em um documento
de 15 páginas.
Acho que há claramente um motivo para a ambiguidade do acordo, talvez
para que ele possa ser favoravelmente interpretado, na eventualidade
de ser necessária uma uma operação mais abrangente dos EUA na região -
alega Isacson.
Procurado pelo JB em Miami, o porta voz do Departamento de Estado
americano, Gregory Adams, disse que, de fato, a única parte do acordo
a inibir operações americanas no Mercosul seriam as duas linhas do
Artigo Terceiro, parte 4.
"Este é um acordo bilateral destinado a reforçar a nossa cooperação em
segurança na luta contra o tráfico de drogas internacional e o
terrorismo na Colômbia. Não há nenhuma outra questão regional ou de
abrangência extraterritorial", garantiu Adams.
Mas a polêmica foi aguçada a partir do documento oficial da Força
Aérea - apresentado por Genoino - datado maio de 2009. Elaborado antes
do texto final do acordo, com o objetivo de fundamentar a destinação
do orçamento de US$ 46 milhões para as operações na Base Aérea de
Palanquero, no centro da Colômbia, o texto afirma que a base "fornece
uma oportunidade para a realização de operações no âmbito total da
América do Sul".
Ainda no documento da Força Aérea americana, que justifica o orçamento
já aprovado pelo Congresso, a América do Sul é chamada de "sub-região
crítica", onde a "segurança e a estabilidade estão permanentemente
ameaçadas pelo narcotráfico patrocinado por organizações terroristas,
governos antiamericanos, pobreza endêmica e desastres naturais
recorrentes".
Adams defende que o texto deveria ser interpretado apenas como uma
proposta de orçamento, e não como um documento a definir a política
americana nas bases colombianas.
"O orçamento da Força Aérea foi elaborado no início deste ano e
apresentado em maio de 2009, isto é, antes de Colômbia e EUA assinarem
o acordo de defesa, em 30 de outubro" - reforça Adams.
Mas para Isacson, o texto mostra, "no mínimo, como os EUA retrataram
seu papel militar na Colômbia para o Congresso americano, há poucos
meses".
"Esse documento revela que a amplitude estratégica das bases é muito
maior que o simples combate ao narcotráfico" - reforça José Genoino.
"O objetivo maior da utilização das bases é permitir operações em todo
o continente sul-americano e controlar o espaço aéreo da região. O
combate ao narcotráfico é apenas uma coisa a mais".
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