90 Anos da Revolução Russa
Por: Marly A. G. Vianna*
As opiniões sobre a Revolução Russa são geralmente bastante
polarizadas: ou furiosamente contra ou apaixonadamente a favor. Nos
dias de hoje, quando muitos comemoram seu fim, surge uma outra posição
que, sem se dar ao trabalho de criticá-la (pois já não se foi?),
simplesmente a colocam num passado remoto, fora de moda, fora de época,
jurássica.
É compreensível que assim seja. A Revolução Russa foi a
primeira grande revolução proletária do mundo. Foi o primeiro
acontecimento mundial a mostrar que o capitalismo não é o fim da história, que é
possível constituir uma sociedade sem que um grupo humano explore outro,
uma sociedade solidária para além de suas fronteiras nacionais. Essa é
uma visão de mundo que a Revolução Russa concretizou e, por ter sido
tão radical em sua transformação da sociedade capitalista, é natural que
polarize opiniões: de um lado, como disse Marx, os que nada tinham a
perder e todo um mundo a ganhar; de outro, aqueles que defendiam sua
sobrevivência enquanto classe. Inevitável polarização, de idéias e de
atitudes.
Para aqueles que se colocam na firme defesa da Revolução
Russa, cabe entendê-la, tanto nos seus acertos, que foram imensos, quanto
nos seus erros e descaminhos, que foram também imensos e que levaram a
que se encerrassem ingloriamente 70 anos de socialismo.
Marx e Engels, como todos os revolucionários, esperavam que
a revolução proletária ocorresse em país com alto nível não só
econômico como cultural. Mas sabiam que não bastam as condições objetivas para
que se dê uma revolução. Na Alemanha, que parecia cumprir todos os
requisitos para a ocorrência e consolidação do socialismo, as vontades
revolucionárias enfrentaram uma oposição tenaz e violenta, acabando por
fracassar em seus intentos de transformação social. Já na Rússia,
atrasada econômica e culturalmente, a guerra ajudou a enfraquecer não só o
tzarismo absolutista quanto a burguesia vacilante do primeiro momento
revolucionário. Por outro lado, a humanidade jamais viu um grupo de
políticos como o primeiro grupo bolchevique que, sob a direção de Lênin, soube
organizar e comandar o povo russo pelo caminho da revolução
proletária.
Dá-se sempre a Revolução Russa como exemplo de uma
revolução violenta, sangrenta, o que não é verdade. A tomada do Palácio de
Inverno foi quase que pacífica. Violenta foi a reação à revolução.
Sangrentos e violentos foram os ataques da Entente, países coligados, depois da
guerra, para atacar a jovem República Soviética. Violenta foi a
contra-revolução dentro do país. Realizada em meio ao caos da Grande Guerra,
contabilizando as perdas sofridas em seu território para garantir a
paz, enfrentando as poderosas forças coligadas contra ela, que lhe
impuseram um verdadeiro cordão sanitário, que lhe isolaram atrás de uma
"cortina de ferro", a revolução havia sobrevivido e começava a consolidar uma
nova sociedade. E isso não teria sido possível sem o apoio maciço da
população. Em 1930 o país havia retomado o nível econômico de 1913,
antes da 1ª Guerra Mundial, e parecia que teria agora, vencidos tantos
obstáculos, a paz necessária para reconstruir-se - esperança logo frustrada
pela II Guerra.
Disse Maiakósviski, em um de seus poemas, que é impossível
pensar na revolução com um prego no sapato. Era preciso criar as bases
materiais para alicerçar sobre elas o socialismo. Nisso a revolução
teve pleno êxito: saúde gratuita e ao alcance de todos, casas sendo
construídas a ritmo vertiginoso e distribuídas à população, educação para
todos, com um mínimo de oito anos de escolaridade obrigatória, transporte
subsidiado e praticamente gratuito. Os êxitos econômicos foram imensos,
mas não bastam. Uma série de situações históricas dificultaram - e
muitas vezes impediram mesmo - a caminhada na direção de uma sociedade
socialista - fundamentalmente humanista.
Nesse ponto, o fenômeno Stalin deve ser analisado, porque o
que passou a ser chamado de stalinismo, isto é, o conjunto de
situações históricas que configuraram os rumos da revolução, e que explicam,
inclusive o comportamento de seus dirigentes, foi o responsável pelos
descaminhos do marxismo e da revolução.
Stalin era o representante mais coerente de uma situação
histórica, de uma Rússia atrasada, preconceituosa, sem tradição de
respeito ao indivíduo, de uma Rússia muito mais autêntica do que a Rússia
culta e humanista representada por Lênin, Trótski, Bukárin, Zínoviev,
Kámenev e tantos outros. Dentro das inúmeras dificuldades por que passava a
revolução, a personalidade de Stálin ganhou força porque sua atuação,
e os apelos místicos a que era dado, chegaram - exatamente pelo que
tinham de apelativos -, ao coração de uma massa que fizera a revolução,
lutava por ela, mas estava exausta de sacrifícios e dificuldades.
O PCUS, depois da sangria da guerra civil, estava
profundamente debilitado. Os melhores quadros bolcheviques haviam morrido na
luta e as dificuldades imensas a serem enfrentadas foram fazendo, como
notou Isaac Deutscher , com que o partido substituísse o povo, que soubera
tão bem conduzir no início da revolução. Depois o comitê central
substituiu o partido, o birô político o comitê central e Stalin pôde dominar
o birô político.
Por ter um pensamento teórico e político pouco elaborado,
Stalin foi um mestre nas simplificações e abastardamento do marxismo, o
que o fez com que qualquer um pensasse entendê-lo bem, sem qualquer
esforço ou dificuldade. Foi um sucesso. Sua doutrina, ainda segundo
Deutscher, "sem raízes profundas em idéias e sem qualquer originalidade em
suas previsões, resumem uma corrente de opinião ou emoção poderosa e não
expressada até então. (...) Uma de suas características notáveis era a
de sentir as tendências psicológicas subterrâneas prevalecentes no
partido e imediações, esperanças não confessadas e desejos tácitos, de que
se constituiu porta-voz."
A Rússia, premida pelas dificuldades internas e ataques
externos, viu-se forçada, para sobreviver, a atitudes extremas, como foi a
industrialização e a coletivização forçada, que levou mais de 100
milhões de camponeses a abandonarem suas primitivas explorações. A
alfabetização, também forçada, fez com que milhões de analfabetos aprendessem a
ler e escrever. Tudo tinha que ser forçado, até mesmo a mudança de
costumes arraigados, como a poligamia de certas regiões, ou o profundo
desprezo pela mulher, que passou a ser tratada com igualdade pela
República soviética. Ivan o Terrível, Pedro o Grande e outros reformadores de
outras nações parecem anões ao lado do vulto gigantesco do
secretário-geral, escreveu Deutscher: "Um homem comum, de idéias medianas, com
punhos e pés de gigante".
Construir o socialismo na Rússia, nas circunstâncias
históricas em que isso foi possível, revolucionar o país por completo, era
uma tarefa hercúlea. Era preciso "forçar". E nesse processo, foram sendo
destruídos postulados fundamentais do marxismo, como a democracia
interna do partido, a democracia socialista para o povo, o respeito ao ser
humano. Desse processo Stalin foi tanto artífice quanto vítima.
No espaço que temos não podemos nos aprofundar em tantas
questões de fundamental importância para a compreensão da Revolução
Russa. Quero então frisar que para opinar sobre a Revolução Russa com um
mínimo de seriedade é preciso estudá-la, entendê-la e explicá-la, saber
porque os acontecimentos históricos se desenrolaram da forma em que
ocorreram e não de outra.
Estar ao lado dos revolucionários russos não quer dizer
esquecer os erros que cometeram. É preciso abominar as barbaridades
cometidas na época do chamado stalinismo, sem esquecer que a Revolução Russa
foi a primeira tentativa de criação de um estado proletário na história
da humanidade, e que seu povo pagou alto preço pelo sonho de construir
uma sociedade igualitária. Pagou com 20 milhões de vidas a derrota do
nazi-fascismo. Tirou de suas mais básicas necessidades recursos para
ajudar a manter a paz no mundo, o respeito à autodeterminação dos povos,
a luta contra o colonialismo, o apoio à Revolução Cubana. É patético
ouvir pessoas que jamais foram capazes de desejar algo além de mesquinhas
necessidades, vivendo num país carente de quase tudo, julgando com
altivo desprezo e espantosa superficialidade um povo que foi capaz de
feitos e sacrifícios inauditos para construir um mundo verdadeiramente
humano.
Evidentemente, aqueles que estamos ao lado da Revolução
Russa sofremos uma derrota, assim como aqueles que prezam a paz e querem
fazer frente à barbárie em que nos encontramos. Mas ser derrotado não
quer dizer não ter razão. Como expressou um revolucionário, Buonaventura
Durutti: "Não temos medo de ruínas - nós herdaremos a Terra. Não há a
menor dúvida quanto a isso. A burguesia pode fazer explodir e arruinar
seu próprio mundo antes de abandonar o palco da História. Nós trazemos o
novo mundo em nossos corações."
* Marly Vianna é Professora da História da Universidade
Federal de São Carlos
[Topo]
[Voltar]